O filme apresenta o drama de um personagem que sofre de um problema comportamental. Brandom é incapaz de interagir com as pessoas de forma natural. Como se alguma "trava" inconsciente o impedisse de expressar naturalmente sua essência e suas emoções. Quando o faz, ou é de forma agressiva, como na cena em que ele está sentando no sofá discutindo com a irmã, ou de forma nula e ausente, como na cena em que fica "travado" enquanto transava com a colega Marianne no motel.
O centro da trama foca-se no único momento em que Brandom consegue se expressar naturalmente: Durante o sexo puramente impessoal. Nesta manifestação puramente instintiva, Brandom se liberta e interage de forma intensa. Também torna-se autoconfiante e com forte "presença", demonstrado na cena em que seduz uma mulher num bar, desafiando seu furioso namorado. Durante o filme, Brandom aparece vivenciando estes momentos de libertação proporcionados pelo sexo insistente e compulsivo.
E aí surge a grande contradição imposta pela vida ao pobre Brandom. Este único ato em que ele pode interagir com naturalidade é exatamente aquele em que a sociedade, especialmente a conservadora Britânica, educa como uma interação "feia", "suja".
Brandom tem total consciência disso e, por isso, recorre ao isolamento de sua casa e ao anonimato da internet. Essa vida privativa lhe deixa a vontade para receber prostitutas e fazer sexo virtual. Este sistema, porém, entra em ruptura quando Brandom recebe a visita de sua irmã que, apesar de extrovertida, carente e problemática, sabe interagir saudavelmente.
Brandom passa então a sofrer mais fortemente os sintomas de sua doença. Sente-se literalmente "sem lugar". Duas cenas ilustram bem a contradição em que vive. Em seu primeiro contato após a chegada da irmã, Brandom se sente constrangido em vê-la nua no banho. Em compensação, ao ser flagrado por ela se masturbando, reage de forma explosiva (ou seja, expressando-se naturalmente) e expõe seu pênis a ela sentindo, provavelmente, uma mistura de sensação de prazer e ódio.
A questão da homossexualidade também é tratada no filme. Entre várias cenas em que faz sexo com mulheres, Brandom também experimenta uma relação homossexual. Não vejo sentido em discutir as escolhas e a orientação sexual do personagem. Também seria um equívoco relacionar seus distúrbios como aqueles típicos de indivíduos mal resolvidos sexualmente. Brandom deturpa o sexo, e o usa como alimento anestésico para sua mente perturbada. Sabe-se que a dor não permite muitas escolhas. Da mesma forma que um vegetariano comeria carne, num momento de fome intensa.
O filme é intenso e emocionante, e o centro do drama está em explora o sofrimento do personagem. Um tipo de sofrimento solitário, por uma doença que limita tanto quanto uma deficiência física, mas que deve ser ocultada por não ser aceita socialmente.
Ao final do filme, o protagonista manifesta um intenso sentimento de auto-piedade. Mostra estar consciente se sofrer de uma mazela, que o aprisiona em uma cela solitária. Tentando analisar mais a fundo o perfil psicológico do personagem, diria que Brandom necessita se vestir com duras máscaras sociais que o protegem e ao mesmo tempo o impedem de interagir e sentir o outro. Isso fica bem claro nas bonitas cenas em que sua irmã canta num bar e quando está no restaurante acompanhado de Marianne. A moça é exatamente o seu oposto. Consegue demonstrar claramente suas reais sensações, com nítida expressão facial e isso inibe instantaneamente o nosso personagem. Em uma cena posterior, eles se encontram finalmente no ambiente em que Brandom se sente a vontade para interagir, num motel para uma relação puramente sexual. Porém novamente ele tem que encarar uma situação de interação saudável, com uma mulher que está ali "presente", de corpo e alma, expondo naturalmente seus sentimentos e desejos. Tal situação causa um caos na mente de Brandom, que simplesmente trava e não consegue reagir nem explicar o que lhe acomete.
O filme termina com uma cena em que Brandom interage com troca de olhares com uma desconhecida no metrô. O que poderia a princípio parecer finalmente uma interação saudável e um sinal de cura, revela a capacidade de Brandom induzir desejo a moça vendo-a e usando-a como uma boneca de porcelana, sem vida e sem sentimento.